Há um equívoco recorrente no debate sobre a Reforma Tributária: a percepção de que o ISS já pertence ao passado.
Não pertence — e a maioria dos gestores municipais sabe disso.
Enquanto a atenção se concentra no IBS, no Comitê Gestor e no desenho do novo sistema, corre-se o risco de subestimar o período final em que os municípios ainda exercem controle efetivo sobre sua principal fonte própria de arrecadação.
Esse intervalo não é residual. Ele é estratégico.
Desde a aprovação da Emenda Constitucional nº 132/2023, multiplicam-se artigos, seminários e análises sobre o futuro do sistema tributário.
Fala-se muito de 2033.
Fala-se pouco de 2026.
Esse deslocamento do debate merece atenção, porque os efeitos da Reforma não se concentram apenas no seu ponto final, mas também — e sobretudo — no percurso que leva até lá.
Tratar o período atual como uma simples “ante-sala” do novo modelo significa ignorar que decisões administrativas, omissões e fragilidades já produzem efeitos mensuráveis.
Muitos gestores já reconhecem esse cenário, mas isso não elimina a necessidade de ação.
O modelo aprovado estabelece que a distribuição futura do IBS considerará históricos de arrecadação. Assim, o desempenho do ISS nos anos imediatamente anteriores e iniciais da transição tende a influenciar, de forma duradoura, a repartição futura das receitas.
Trata-se de consequência direta do desenho constitucional da Reforma.
Negligenciar o ISS neste momento não afeta apenas a arrecadação corrente. Compromete também a posição do município no novo sistema, justamente quando os instrumentos de reação deixarão de estar sob controle local.
Desde 1.º de janeiro de 2026, o IBS entrou em fase de teste. O ISS continua existindo, mas o contexto institucional e operacional se transforma.
✔ bases de dados se consolidam;
✔ padrões nacionais se firmam;
✔ critérios de repartição começam a ganhar materialidade.
A transição deixa de ser apenas normativa e passa a ser operacional e mensurável.
Nesse ambiente, o desempenho do ISS deixa de ser apenas um dado contábil e passa a assumir relevância estratégica para o futuro das finanças municipais.
É importante afirmar com clareza:
o alerta não se refere a aumento de carga tributária.
O que está em jogo é a capacidade de preservar e qualificar a base já existente:
✔ cadastro econômico defasado;
✔ prestadores de serviços fora do radar da fiscalização;
✔ notas fiscais não emitidas;
✔ base real subdimensionada.
A perda de arrecadação, nesses casos, não decorre de decisão política explícita, mas de inércia administrativa — justamente no período em que a base atual passa a influenciar o futuro.
Ouvido nesta semana sobre o conteúdo do artigo, o presidente da ASSEFIN-SP, Adriano Luiz Leocadio, secretário de Finanças de Santos, destacou que a entidade vem tratando o tema de forma contínua e estruturada.
“A Reforma Tributária não é um assunto episódico. Ela exige acompanhamento permanente, leitura técnica e preparação concreta dos municípios, especialmente neste período de transição”, afirmou.
Segundo Adriano, a ASSEFIN-SP tem mantido esse enfoque por meio de eventos presenciais, encontros técnicos e debates especializados, nos quais o futuro do ISS e os impactos operacionais da Reforma vêm sendo analisados sob a ótica da gestão municipal e da realidade concreta das administrações locais.
Essa atuação envolve a diretoria da entidade, secretários municipais, técnicos e especialistas convidados, sempre com foco em orientação, capacitação e troca de experiências.
Ao longo do primeiro semestre de 2026, essa agenda será intensificada, com novos debates voltados à Reforma Tributária, aos critérios de adoção da Nota Fiscal de Serviços eletrônica (NFS-e) e, de forma objetiva, aos desafios da fiscalização do ISS, com destaque para o uso de inteligência fiscal, cruzamento de dados e ferramentas tecnológicas.
Os encontros previstos até o SGESP, em julho, reforçam que o alerta não é teórico. Trata-se de preparação concreta, alinhada com o momento vivido pelos municípios.
A Reforma Tributária já está em curso, e seus efeitos não começam apenas em 2033 — eles estão sendo construídos agora.
Por isso, 2026 não é o começo do IBS.
É o último grande alerta para o ISS.
Este artigo integra uma série editorial da ASSEFIN-SP sobre a Reforma Tributária e seus impactos na gestão municipal.
▶ Para compreender os marcos, a linha do tempo e as ações concretas da transição, acesse o artigo:
Reforma Tributária: a linha do tempo que importa para os municípios
👉 [link]
▶ A ASSEFIN-SP também disponibiliza um Guia sobre a Reforma Tributária, com orientações técnicas e institucionais para os municípios.
👉 [Guia da RT]